Micropogonias furnieri na Lagoa dos Patos: um estudo da relação entre parasitismo, bem-estar de peixes e aquicultura

Autor: Ana Luiza Velloso (Currículo Lattes)
Orientador: Dr Joaber Pereira Júnior

Resumo

A corvina, Micropogonias furnieri, representa um dos recursos pesqueiros mais importantes do Oceano Atlântico Sudoeste e apresenta potencial para aquicultura, a exemplo de outros Sciaenidae cultivados em outras partes do mundo. Um apreciável volume de informações sobre sua biologia está disponível e vários estudos foram desenvolvidos sobre parasitoses em M. furnieri no litoral dos estados brasileiros do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, no Uruguai e na Argentina. Assim, a corvina pode ser um modelo biológico apropriado para o estudo das interações entre parasitismo, bem-estar de peixes e aquicultura. O objetivo deste estudo foi caracterizar a influência do parasitismo por metazoários sobre a corvina no estuário da Lagoa dos Patos, utilizando correlações entre os índices parasitológicos de Prevalência (P) e Intensidade de Infecção/Infestação (II) com índices somáticos: Índice Gônado-Somático (IGS), Índice Hepato-Somático (IHS) e Fator de Condição Relativo (Kn), que são indicadores do bem-estar. Para isso, foram estudadas amostras procedentes de dois ambientes: pré-límnico (mais distante da costa atlântica) e estuarino (mais próximo da costa), pois diferenças destes ambientes poderiam ser refletidas na fauna parasita. Além disso, foi discutida a relação entre parasitismo, bem-estar do peixe e aquicultura. Foi utilizada a definição de bem-estar animal baseada em funções, em que bem-estar significa que o animal está em boa saúde, com seus sistemas biológicos funcionando adequadamente e não sendo forçado a responder além de sua capacidade. No primeiro capítulo, é caracterizada a influência do ectoparasitismo sobre o bem-estar de M. furnieri. Para isso, foram necropsiados 181 espécimes de corvina e os parasitos encontrados foram: Gauchergasilus euripedesi (Copepoda), Myzobdella uruguayensis (Hirudinea), Neomacrovalvitrema argentinensis e Neopterinotrematoides avaginata (ambos Monogenoidea). A relação entre a abundância parasitária e os índices somáticos do hospedeiro foi verificada, mas nenhuma correlação significativa foi determinada, sugerindo tolerância do hospedeiro à parasitose nos valores encontrados. Além disso, a comparação das amostras nos ambientes pré-limnico e estuarino mostrou diferenças na diversidade e intensidade de espécies parasitas encontradas, sugerindo uma preferência dos parasitos por diferentes salinidades. No segundo capítulo, é estabelecida a relação entre o endoparasitismo e o bem-estar da corvina. Como ocorreu com os ectoparasitos, não houve correlação significativa, sugerindo um equilíbrio entre hospedeiros e parasitos, o que é esperado para peixes em ambiente natural. Entre os endoparasitos encontrados estão os Aspidogastridae e Nematoda (principalmente Anisakidae). A variação na intensidade de Aspidogastridae por local amostrado pode estar relacionada à viabilidade do cíclo de vida destes parasitos. O efeito patogênico direto da presença de Nematoda é muito menos importante do que seu papel como agentes causadores de zoonoses. Além disso, as atitudes dos consumidores em relação à sua presença, especialmente pela estética do produto parasitado, pode ter um grande impacto sobre o valor de mercado do pescado, salientando a necessidade de monitoramento. No terceiro capítulo é apresentada uma revisão sobre como os efeitos do parasitismo em peixes podem ser relacionados ao bem-estar de peixes e a aquicultura, utilizando as recentes informações disponíveis sobre o tema. Para finalizar, é apresentado um conjunto de considerações que, além de estabelecer relações entre os três capítulos, sugere algumas recomendações. O impacto da salinidade sobre interações parasito-hospedeiro é um regulador potencial dos processos de sobrevivência e transmissão do parasito. Essa é uma informação importante para o cultivo de M. furnieri, pois sugere que o controle destes parasitos pode ser realizado por regulação dos níveis de salinidade. Deve-se considerar que as doenças são parte da natureza e, quando entendidas desta forma, torna-se mais fácil lidar com a sua ocorrência. Profilaxia e vigilância devem ser os princípios orientadores na aquicultura moderna; o tratamento deve ser usado apenas quando estritamente necessário, evitando a introdução de drogas no meio ambiente. Dessa forma, os parasitos devem ser considerados como parte deste processo, monitorá- los, mas sem a pretensão de excluí-los. Assim, pode-se dizer que é possível sustentar a interação entre os parasitos, bem-estar e a aquicultura.

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