Controle de pH e dureza total em sistema de bioflocos, avaliando a qualidade da água e o desempenho de Tilápia do Nilo Oreochromis niloticus (L.)

Autor: Gabriel Bernardes Martins (Currículo Lattes)
Orientador: Dr Ricardo Berteaux Robaldo

Resumo

Em sistema de bioflocos (BFT), a alta biomassa de peixes e matéria orgânica, associadas à ciclagem dos nitrogenados inorgânicos, ocasionam intenso consumo da alcalinidade e redução do pH. Portanto, são necessárias frequentes adições de composto alcalinizante. Nesse contexto, como forma de aprimorar o sistema BFT para tilápias do Nilo Oreochromis niloticus, este estudo avalia a utilização de fontes alcalinizantes e valores de pH e dureza, verificando o desempenho de crescimento e a qualidade da água durante a fase de berçário. Todos os ensaios foram realizados no “Laboratório de Piscicultura do Chasqueiro”, da Universidade Federal de Pelotas. Para os ensaios, foram utilizadas caixas com 37.5 L de volume útil, aeração contínua (pedra porosa), aquecedor (28°C) e três réplicas para cada tratamento. O primeiro capítulo, realizado durante 60 dias, demonstra que o melhor desempenho de crescimento e produtividade ocorre ao utilizar bicarbonato de sódio (NaHCO3) (44,1 ± 0,9 g e 23,5 ± 0,5 kg/m3), comparado ao carbonato de cálcio (CaCO3) (38,3 ± 1,3 g e 20,8 ± 0,70 kg/m3), enquanto o hidróxido de cálcio (Ca(OH)2) (40,6 ± 1,7 g e 21,6 ± 0,9 kg/m3) foi similar aos demais. O crescimento reduzido para o tratamento CaCO3 foi atribuído ao excessivo aumento dos sólidos suspensos totais (SST) e maior frequência de clarificações, que consequentemente reduzem o teor de proteínas totais dos bioflocos. Além disso, ao utilizar Ca(OH)2 ou CaCO3, a água tornou-se extremamente dura (>1000 mg/L CaCO3), entretanto não parece ter comprometido o crescimento. A sobrevivência (aprox. 80%) e a conversão alimentar (aprox. 1,1) não diferiram entre os tratamentos. Para avaliar o status fisiológico dos peixes, ao final do ensaio foram coletados tecidos (sangue, fígado e brânquias) para avaliação de parâmetros hematológicos e da capacidade antioxidante. Ambos os parâmetros não demonstraram alteração, indicando que a utilização dos alcalinizantes não provoca distúrbio fisiológico. O segundo capítulo, testando os de pH 6,5, 7,5 e 8,3 durante 60 dias, demonstrou crescimento e produtividade superiores para o pH 7,5 (44,1±0,9g e 23,5±0,5kg/m3), comparado ao 8,3 (37,1±3,9 g e 19,1±2,0 kg/m3), enquanto o 6,5 (40,4 ± 4,1 g e 22,6 ± 2,3 kg/m3) foi similar aos demais. A sobrevivência (aprox. 80%) e a conversão alimentar (aprox. 1,1) não diferiram entre os tratamentos. Os resultados indicam ser vantajoso à nitrificação iniciar a formação dos bioflocos com pH próximo a 8,0, e que a manutenção até pH 6,5 não compromete a ciclagem dos nitrogenados. Ainda mais, a manutenção do sistema com pH mais baixos reduz a produção de sólidos, o que favorece o aumento do teor protéico dos bioflocos, devido a menor necessidade de remover sólidos. As avaliações hematológicas e oxidativas não demonstraram diferença entre os tratamentos, sugerindo que não é um desafio às tilápias o pH entre 6,5 e 8,3. No terceiro capítulo, ao testar as concentrações de dureza (250,0, 700,0 mg/L CaCO3 e controle (79,0 mg/L CaCO3) por 20 dias, utilizando CaCl2, o melhor desempenho de crescimento e produtividade ocorreu para 250 (7,6 ± 0,4 g e 4,8 ± 0,2 kg/m3) e 700 (7,4 ± 0,3 g e 4,6 ± 0,05 kg/m3), comparado ao controle (6,3 ± 0,1 g e 3,6 ± 0,4 kg/m3). Enquanto a sobrevivência (aprox. 80%) e a taxa de conversão alimentar (aprox. 1,0), não diferiram entre os tratamentos. As concentrações de SST demonstrou elevação positiva com o aumento da dureza. Isso deve-se à maior adesão de Ca na estrutura dos bioflocos, aumentando a densidade, o que torna o índice de volume de floco (FVI, mL/g) nos tratamentos com correção da dureza mais estável ao longo do ensaio. Finalmente, como forma de otimizar o desempenho, os resultados obtidos podem ser utilizados na produção de tilápias do Nilo O. niloticus em sistema BFT, indicando a formação de bioflocos usando pH em torno de 8,0, manutenção em pH até 6,5, como também a utilização dos alcalinizantes NaHCO3 ou Ca(OH)2. Ainda mais, a utilização de Ca(OH)2 causando elevação excessiva da dureza, não compromete o crescimento quando mantida até 700 mg/L CaCO3.

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